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Dobradinha Trappista – La Trappe e Achel

La Trappe

Atualmente temos apenas 11 mosteiros trapistas produtores de cerveja ao redor do mundo. Apesar de uns serem mais abertos ao público e outros mais fechados, cada visita a eles é uma mistura de emoção com renovação indescritível. Então imagina como fica o coração do cervejeiro ao visitar dois mosteiros no mesmo dia. E mais: em países diferentes.

É o que acontece com todos os abençoados que tiram o dia – porque não vale a pena somente algumas horinhas – para visitar o mosteiro Koningshoeven, produtora das La Trappe, e o De Achelse Kluis, que produz as Achel. Isso porque os dois ficam próximos, sendo o primeiro na Holanda e o segundo na Bélgica, praticamente na fronteira dos países.

Fermentação secundária

Estava hospedado em Antuérpia, que é uma ótima base para visitar também o mosteiro produtor da Westmalle, além de ser a cidade do Kulminator. O dia começava com a visita na La Trappe agendada para às 11 da manhã e o trajeto até lá levava cerca de uma hora. 

Claro que 9 e meia da manhã eu já estava na entrada do mosteiro. E claro que ele estava fechado. Deixei a ansiedade cervejeira de lado e aproveitei para tirar fotos e conhecer o entorno, até que um monge apareceu e, de forma muito tranquila, abriu os portões da felicidade.

O monastério é grande e tudo é muito bem cuidado. Há bosques, jardins e muita área verde, além de algumas plantações experimentais de lúpulo. É uma mistura de espiritualidade com excelência cervejeira. 

Fomos recebidos pelo guia, uma figura muito simpática, na entrada do bar-restaurante. Após algumas piadas sobre eliminação em copas do mundo (vamos lembrar que o mosteiro fica na Holanda), fomos para uma antessala, onde seria apresentado alguns vídeos sobre a visita, a cervejaria e o mosteiro. 

Cada visitante ganhou quatro vouchers para escolher quatro cervejas entre os oito rótulos enquanto assistíamos os vídeos e as explicações. E não eram provinhas: cada cerveja vinha na sua respectiva taça. Comecei com a PUUR, depois fui para a Witte Trappist, seguida da Dubbel e da Isid’or.

A visitação mal tinha começado e eu já tinha degustado quatro cervejas. Que maravilha! O vídeo terminou e começamos o tour pela cervejaria. A caminhada começou pela parte antiga da cervejaria, onde o guia explica todo o processo de fabricação do líquido sagrado. 

O que chamou atenção nessa visita é que a cada ambiente que entrávamos o guia nos alertava: “never forget the second fermentation” – ou nunca se esqueça da fermentação secundária, em português. 

Esse processo vem logo após a fermentação propriamente dita do mosto cervejeiro e tem como objetivo eliminar os aromas e sabores indesejados e arredondar os desejados — algo que só fui compreender bem quando passei a fazer cerveja em casa e que os monges da La Trappe dizem ser a magia das suas receitas.

Passamos pelas novas instalações e concluímos a visita na área de envase com vários barris cheios, que mais parecia um estoque de alegria em forma líquida. Depois de andar pela fábrica toda, fomos ao bar-restaurante para almoçar e nos hidratar até a próxima parada. Ainda deu tempo de degustar a Tripel e a Quadrupel da casa harmonizadas com os fantásticos pratos do restaurante, no melhor estilo belga de ser.

Nascedouro cervejeiro

la trappe

Seguimos para a Achel, que ficava a cerca de 40 minutos de distância. O caminho todo foi repleto de pequenas florestas, campos, fazendas e vilarejos. Cruzamos a fronteira e estávamos novamente na Bélgica. O mosteiro fica numa região envolta por bosques e plantações, inclusive de lúpulo. A visitação é restrita, mas ainda foi possível conhecer boa parte externa do mosteiro. 

Há um bar-café anexo ao monastério e ali paramos para degustar as Achel direto da fonte. Comecei pedindo pela Patersbier da casa: uma cerveja dourada, menos alcoólica que a Blond tradicional (Achel 5º Blond) e que só é encontrada lá. É a cerveja do dia a dia dos monges. Renovador! 

Para ficar ainda melhor, a parte interna do café faz divisa com a cervejaria e enquanto degustava a minha trapista aproveitei para admirar o seu nascedouro. Terminei com a Dubbel da casa, uma Achel 5º Bruin. 

Terminamos o passeio na loja da abadia. Na realidade é praticamente um mercado cervejeiro: há vários itens de diversas cervejarias, além de vários outros produtos trapistas. Enchi a mala de queijos, geleias, pães, taças e garrafas de vários rótulos belgas. 

Num só dia, dois países, dois mosteiros, duas cervejarias, muita história para contar e ainda muita expectativa por tudo que nos aguardava em Antuérpia. 

Até a próxima!

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Escrito por Enzo Molinari

Administrador de empresas e amante da cultura cervejeira. Homebrewer, BJCP Provisional Judge e beer sommelier.

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