in

Guia (não tão) prático de como inscrever sua cerveja em um concurso

Como inscrever cerveja em concurso? Sou homebrewer desde 2008, uma época obscura na qual para se fazer cerveja em casa era preciso uma boa dose de MacGyverismo (para os mais novos, MacGyver era um cara de um seriado chamado “Profissão Perigo” no qual tudo que esse mestre precisava para resolver as mais diversas situações eram itens do cotidiano como moedas, barras de chocolate, chiclete e grampos de cabelo). Coincidentemente foi o ano do Mestre Cervejeiro Eisenbahn, que consagrou Leonardo Botto com sua Dama do Lago.

Desde então tenho a vontade de me inscrever no concurso, mas por um motivo ou outro eu sempre ficava sabendo depois de encerrados os prazos de inscrição. Em 2017 o concurso foi moldado para se transformar em um Reality Show e agora parece que a divulgação está muito mais difundida por isso, então em 2018 esse que vos escreve consegue ficar sabendo do concurso dentro do prazo de inscrição! Beleza… mas e agora, como prosseguir?

Dica 1: Leiam o regulamento

Sabe aqueles contratos de aplicativos que a gente sempre clica em confirmar sem ler nenhuma página? Então, normalmente eles entregam sua alma ao diabo e você nem está sabendo. A preguiça nos faz pular esses textos chatos, mas quando se trata de concurso cervejeiro essa preguiça pode lhe desqualificar facilmente! Olha só:

O estilo escolhido para o Mestre Cervejeiro 2018 foi o Berliner Weisse. Cerveja típica alemã com um caráter ácido bem acentuado. Existem várias formas de acidificar uma cerveja: bactérias, malte acidificado, sour mash, inclusão de ácido láctico/cítrico na receita… Porém lá nas letrinhas miúdas do regulamento tinha o seguinte:

3.4.2. A acidificação do mosto deve ser realizada por via bacteriana para posterior fidedigna reprodução.

3.4.3. Não será permitida a utilização do fermento Brettanomyces. Amostras contendo o referido componente serão, imediatamente, desclassificadas.

Então olha a cilada: Não posso usar só malte, não posso introduzir ácido e não posso usar a Brett. O mosto deve ser acidificado com bactérias (Lactobacillus). Complicado né?

Dica 2: pesquisem o regulamento

Oi? Como assim? Pois é, depois de você ter lido até de trás pra frente o regulamento e ter decorado ele igual à tabuada, é hora de estudar sobre ele. Outro concurso no qual resolvi me inscrever há algum tempo foi o Concurso Homebrew 2018 do Slow Brew. Regras da receita: independente da base de estilo, necessita ser uma Fruit Beer utilizando frutas brasileiras. Então, descubro que em 2017 um dos cinco finalistas foi desqualificado por utilizar graviola na receita. Apesar de ser bem difundida e cultivada no Brasil, essa fruta tem sua origem nas Antilhas. Aí estou eu criando minha receita usando manga achando que estava tudo certo, mas só pra dar aquele alívio fui pesquisar sobre e descobri que, apesar de diversas espécies de manga serem exclusivas do Brasil, as primeiras mudas vieram da Índia e da Filipinas. Ou seja, não pode! Lá vou eu criar outra receita do zero usando outras frutas.

Dica 3: Revisem o regulamento

Já falei pra lerem o regulamento? A coisa é realmente complexa, colocam diversas cláusulas que se não forem seguidas invalida a inscrição. Olha só outro caso que aconteceu durante a minha inscrição pra Eisenbahn:

2.17. Embalagem das amostras: (i) 08 (oito) garrafas de 600 ml cada, contendo apenas etiqueta ou adesivo com o número do CPF do candidato, sem qualquer outra identificação/rótulo de marcas nas garrafas ou tampas.

Ou seja, não pode usar garrafa padrão inglês nem a famosa de Weiss (elas têm 500 ml). Não pode usar aquela tampinha bonitinha com os ingredientes da cerveja desenhados nela. Não pode usar garrafa de cerveja de boteco (a maioria delas tem inscrições em alto-relevo). Durante meu envase usei algumas garrafas reaproveitadas de Baden Baden. Quando estou enchendo a segunda ou terceira garrafa noto um pequeno detalhe: essas garrafas têm o nome da marca em alto-relevo, assim como as cervejas de bar. Ainda bem que percebi isso antes de engarrafar a leva toda e pude separar esses recipientes.

Dica 4: saiba exatamente o que você fará e confie no seu taco

Essa não tem a ver com o regulamento em si, mas diz muito a respeito dos prazos de inscrição. Quando soltam o regulamento já é tarde demais, os prazos são muito apertados. A Eisenbahn nos deu dois meses para a inscrição, isso contando a chegada da garrafa até o endereço deles. Agora faz as contas aqui com o tio: tempo para criar a receita teórica, listar e comprar os ingredientes (que muitas vezes estão em falta no nosso fornecedor mais próximo ou é uma fruta de estações específicas, por exemplo), tempo de brassagem, maturação, problemas corriqueiros dos serviços de entrega… A conta não bate. Dois meses é pouco.

Então não temos tempo para vacilar, não dá para brincar de químico e sair testando receitas e métodos novos. O jeito é confiar na famosa frase “menos é mais” e fazer aquilo que temos confiança para produzir de olhos fechados, porque em caso de qualquer erro não há tempo de fazer outra leva.

Resumindo: fazer cerveja em casa é um hobby muito gostoso e desestressante. Contudo, a partir do momento em que você pensa em investir nos campeonatos, saiba que o processo todo pode ser muito desgastante mentalmente. Atenção a todos os detalhes e a palavra-chave aqui é também ponderar se vale a pena ou não passar por todo esse processo.

Eu particularmente gostei muito, pois adoro superar desafios. E põe desafio nisso! Mas lembre-se que o desgaste todo pode estragar aquele amor pelo hobby, então é bom estar preparado!

Cheers!

Deixe uma resposta

O QUE VOCÊ ACHOU?

Escrito por Fred Banionis

Homebrewer, sommelier de cerveja e produtor audiovisual. Amante de harmonizações e caçador de novas experiencias.

A cervejaria d’Achouffe e os gnomos mais cervejeiros do mundo

Gatorade é para os fracos – Cervejarias apostam em cervejas mais saudáveis