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Na busca do elefante rosa – Uma visita à Delirium

Toda boa viagem tem imprevistos que se transformam em ótimas histórias. Em 2018, uma semana antes de embarcamos em nossa segunda expedição cervejeira pela Bélgica, eu e minha esposa recebemos um e-mail da Huyghe Brewery – aquela que faz a série do elefantinho rosa – informando que poderia nos incluir uma visita à Delirium com um grupo dinamarquês. Para conseguir fazer o tour na fábrica, era necessário ter um grupo mínimo de 15 pessoas. Era uma oportunidade única, ainda mais porque no final os visitantes degustam as cervejas direto da fonte, em um tap dentro da fábrica. Não hesitamos e confirmamos! Só havia um pequeno problema: o tour estava marcado para às 16:00 de uma terça-feira e neste mesmo dia tínhamos uma visita no mosteiro trapista Maria Toevlucht, que faz a Zundert, na Holanda, cuja loja que vende as cervejas e taças abriria às 14:00 e fica distante 115 quilômetros do templo da Delirium.

Como foi nossa visita à Delirium?

Chegado o grande dia, após uma bela visita pelo mosteiro, fomos recebidos por um monge trapista pontualmente às 14:00 na loja. Uma pessoa tão agradável que fomos obrigados a ceder a longas conversas sobre cerveja e espiritualidade. Tínhamos previsto sair às 14:15 e quando partimos para a Delirium já era 14:30. Não ia dar tempo. O GPS acusava chegada às 16:05. Seguimos, sempre no limite de velocidade, e chegamos pontualmente às 16:00. A 50 metros da porta da cervejaria, vimos um grupo identificado com a bandeira da Dinamarca deixando as instalações. Pronto, perdemos mesmo o tour!

Entramos. Fomos direcionados para um salão com grandes barris que servem de mesa aos visitantes, com prêmios expostos, relíquias da cervejaria, além de um minibar com cerveja da casa à vontade. Estávamos no recinto apenas eu, minha esposa e um casal. Fomos recebidos rapidamente pelo Jose de Bock, o famoso e simpático guia da cervejaria, que nos pediu para aguardarmos enquanto explicava a outro casal que não era possível fazer o tour naquele dia, somente com grupo mínimo de 15 pessoas. Se ainda havia esperanças de fazer a visita, neste momento elas acabaram. Agonizamos por alguns minutos até o outro casal ir embora e o Sr. Jose nos convidar a tomar a uma taça de Delirium Tremens (Belgian Golden Strong Ale – 8,5%) direto da fonte. Aceitamos o prêmio de consolação. O Sr. Jose foi até o bar, encheu duas taças e veio conversar conosco.

Do pesadelo ao sonho cervejeiro

Foi aqui que tudo mudou! Jose nos informou, ao mesmo tempo em que se desculpava, que o grupo com o qual faríamos a visita se atrasou e a visita iniciaria às 17:00. Se aceitássemos ficar, poderíamos degustar à vontade todas as cervejas produzidas pela casa enquanto esperávamos. De repente, o que parecia um pesadelo se tornou um verdadeiro sonho cervejeiro.

Como éramos os únicos visitantes, tínhamos toda a atenção do Jose. Ele nos levou a um corredor, apontou para uma sala envidraçada, mas muito bem protegida, e disse: “aqui fica nosso segredo”. Era a sala onde fazem as propagações da levedura secreta utilizada pela cervejaria. Nossas taças já estavam no fim quando contei com entusiasmo que faço cerveja em casa. Ele apenas disse: “então você precisa conhecer o homem que fez a receita da cerveja que você está tomando”. Voltamos ao bar, ele nos serviu duas taças da Delirium Nocturnum (Belgian Dark Strong Ale – 8,5%) e nos apresentou ao mestre-cervejeiro que elaborou a receita da série Delirium. Neste momento, não queria mais que a visita começasse. Conversamos sobre o mercado cervejeiro, escolas cervejeiras, rótulos preferidos, técnicas de brassagem, ingredientes. Jose nos trouxe uma taça da Delirium Christmas (Belgian Dark Strong Ale – 10,0%) e informou que o tour começaria dentro de alguns minutos.

Enfim, o esperado tour pela Delirium

Os dinamarqueses chegaram e iniciamos o tour pela Delirium. A fábrica é enorme e muito moderna. A maior parte dos processos são automatizados e a operação toda é feita com 32 funcionários, sendo que um percentual deles faz parte de um projeto social belga. O tour passa pela fábrica toda, desde sala de brassagem até envase e expedição e leva cerca de 1 hora. Vale muito!

Terminado tour voltamos para o minibar, que, via de regra, é o momento em que os visitantes degustam os rótulos da cervejaria. Acompanhamos os dinamarqueses degustando uma La Guillotine (Belgian Golden Strong Ale – 8,5%) e uma Floris Kriek (Fruit Beer – 3,6%). Depois de tanta hospitalidade belga, passamos na loja da cervejaria e compramos tudo que tínhamos direito. Rumamos para Brugges, onde nos aguardava o místico Staminee de Garre com sua quase impossível Tripel. Mas essa já é outra história e fica para uma próxima.

Cheers!

 

 

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Escrito por Enzo Molinari

Administrador de empresas e amante da cultura cervejeira. Homebrewer, BJCP Provisional Judge e beer sommelier.

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